11 de setembro: ...
... eu estava lá !!!!
Em 2001 fui passar uma semana em NY com minha namorada e aproveitei bastante. Depois do passeio todo se me perguntassem do que eu mais tinha gostado eu diria: do Little Italy e do World Trade Center. Little Italy por causa do astral legal, das músicas e da comida. Do WTC pela surpresa: uma grande infra-estrutura no topo do mundo com comida, banheiros, telefones e cinema. Mais: lá em cima de tudo uma vista maravilhosa com um detalhe engraçado ... não havia vento !!! Eu que ando sempre com meu pente declarei na hora que aquilo só podia ser o resultado de alguma tecnologia milagrosa ... Ah, esses americanos !!!
Apenas para ilustrar, aqui estamos nós, quatro dias antes da tragédia, capturados por uma webcam em plena Times Square. Se você forçar a vista vai reparar que na foto da minha namorada estou no telefone público falando com o meu irmão aqui no Brasil ( foi ele quem imortalizou estes momentos ).

Se você quiser dar uma olhada em como está este mesmo lugar agora em Nova Iorque clique aqui.
( sábado, 08/09/01 )
Tiramos duas fotos lá em baixo com as torres atrás da gente, voltando da Estátua da Liberdade. Primeiro me deitei no chão e peguei minha namorada em primeiro plano, os prédios em segundo. Depois ela fez o mesmo ( e melhor do que eu ).

Entramos, compramos nossos bilhetes ( clique na imagem abaixo e veja meu tíquete ), aguardamos na fila e subimos usando um elevador rápido pacas onde uma universitária falava sobre os prédios, sua altura, etc. Chegamos lá em cima e a surpresa que falei: lojas, uma espécie de praça de alimentação, banheiros ( pensei "nunca fiz um xixi tão alto !!! ) e tudo mais. Parecia um shopping voador.

Comemos ( era hora do almoço ), briguei com o atendente do restaurante, compramos umas besteiras e subimos para o terraço em uma escada rolante. Lá em cima havia uma espécie de grande praça onde podia se andar em volta e com bancos para sentar ( veja abaixo ). Fomos em cada canto da praça, tiramos fotos e vimos a Estátua pequenininha lá em baixo. Eu até fiquei de pé em um dos bancos para conseguir um ângulo melhor de visão, ainda impressionado com o tamanho da antena da torre ao lado ( veja abaixo ).
Uma maravilha e posso fechar questão: o Empire States é um fracasso se comparado com o WTC.

Um passeio e tanto. Chegando lá em baixo, do lado de fora, preparei meu tripé para tirar um foto com minha namorada aproveitando o automático da máquina. Havia uma placa onde estava escrito "Torre 2" ou algo assim. De repente e do nada, surgiu um cara dentro de um terno-uniforme e me disse simplesmente que "tripé não podia".

Comemos ( era hora do almoço ), briguei com o atendente do restaurante, compramos umas besteiras e subimos para o terraço em uma escada rolante. Lá em cima havia uma espécie de grande praça onde podia se andar em volta e com bancos para sentar ( veja abaixo ). Fomos em cada canto da praça, tiramos fotos e vimos a Estátua pequenininha lá em baixo. Eu até fiquei de pé em um dos bancos para conseguir um ângulo melhor de visão, ainda impressionado com o tamanho da antena da torre ao lado ( veja abaixo ).
Uma maravilha e posso fechar questão: o Empire States é um fracasso se comparado com o WTC.

Um passeio e tanto. Chegando lá em baixo, do lado de fora, preparei meu tripé para tirar um foto com minha namorada aproveitando o automático da máquina. Havia uma placa onde estava escrito "Torre 2" ou algo assim. De repente e do nada, surgiu um cara dentro de um terno-uniforme e me disse simplesmente que "tripé não podia".
O que ele pensou ? Que aquilo era um rifle ? Que eu era um terrorista ? Isto agora me parece morbidamente engraçado.
Tivemos que tirar as fotos em separado, um de cada vez. Veja a foto abaixo e repare que estou com o tripé na mão. Aliás, na foto com o tamanho original pode-se ver ao fundo, no lado direito, o chato do cara que embarreirou a foto.

( segunda, 10/09/01 )
Minha namorada tinha pensado em ir em uma excursão a um shopping que ficava a 40 minutos do nosso hotel para passar o dia inteiro fazendo compras. Era como se fosse um dia livre para nós uma vez que já tínhamos visitado tudo que tinhamos selecionado em nossos planos e esta era uma boa opção, pelo menos para ela. Eu não estava a fim de passar o dia fazendo compras e propus a ela que ela fosse sozinha. Eu ficaria a toa, passeando pela cidade e procurando novidades.
A verdade é que o dia não estava dos mais bonitos e decidimos, então, ficarmos juntos e ir no final da tarde a um outro shopping que ficava perto do WTC. Tivemos uma certa dificuldade em acha-lo porque o raio da rua em que ele ficava simplesmente não aparecia nos nossos mapas. Agora entendo o mote "New York's Best Kept Secret".
Chegamos lá já no final da tarde e havia uma chuvinha chata caindo, o que fez com que o shopping - que não me animou em nada pois eu destesto shoppings - ficasse quente pacas por dentro. Me lembro de ter ido até uma das portas que dava para a rua e olhado para cima. Vi as torres subindo em direção ao céu e sumindo no meio das nuvens e da chuva. Pensei comigo: "Estar lá em cima agora ? Nem pensar ... ".
Tivemos que tirar as fotos em separado, um de cada vez. Veja a foto abaixo e repare que estou com o tripé na mão. Aliás, na foto com o tamanho original pode-se ver ao fundo, no lado direito, o chato do cara que embarreirou a foto.

( segunda, 10/09/01 )
Minha namorada tinha pensado em ir em uma excursão a um shopping que ficava a 40 minutos do nosso hotel para passar o dia inteiro fazendo compras. Era como se fosse um dia livre para nós uma vez que já tínhamos visitado tudo que tinhamos selecionado em nossos planos e esta era uma boa opção, pelo menos para ela. Eu não estava a fim de passar o dia fazendo compras e propus a ela que ela fosse sozinha. Eu ficaria a toa, passeando pela cidade e procurando novidades.
A verdade é que o dia não estava dos mais bonitos e decidimos, então, ficarmos juntos e ir no final da tarde a um outro shopping que ficava perto do WTC. Tivemos uma certa dificuldade em acha-lo porque o raio da rua em que ele ficava simplesmente não aparecia nos nossos mapas. Agora entendo o mote "New York's Best Kept Secret".
Chegamos lá já no final da tarde e havia uma chuvinha chata caindo, o que fez com que o shopping - que não me animou em nada pois eu destesto shoppings - ficasse quente pacas por dentro. Me lembro de ter ido até uma das portas que dava para a rua e olhado para cima. Vi as torres subindo em direção ao céu e sumindo no meio das nuvens e da chuva. Pensei comigo: "Estar lá em cima agora ? Nem pensar ... ".
( terça, 11/09/01 )
Acordamos cedo, afinal, era nosso último dia em Nova Iorque. Ainda tinhamos que comprar alguns presentes e o horário do nosso vôo ( da American !!! ) nos obrigaria a sair do hotel na hora do almoço. Clique na imagem abaixo e veja minha passagem.

Nosso hotel ficava na 32nd Street esquina com Broadway num pedaço da cidade que é conhecido como Little Korea. Um hotel legal e bem localizado ...o Empire State ficava praticamente atrás dele ( clique qui e veja uma foto do hotel e outras dicas sobre ele ).
Logo que saimos do hotel reparei uma certa bagunça de carros de bombeiros e sirenes pelas ruas, mas nem me liguei. A cidade é bem barulhenta e movimentada. Me pareceu que tudo estava normal. Já tentei várias vezes lembrar que horas eram, mas acho que só com uma hipnose regressiva eu vou conseguir. O fato é que viramos na Broadway e depois na 33rd para irmos numa lanchonete na 5a Avenida tomar o nosso café da manhã. Já na 33 eu reparei que tinha um grupo de jovens amontoados e conversando agitadamente em uma roda. Eu nem liguei ... Era uma garotada de um colégio daquela área e pensei que pudessem estar fazendo hora para entrar na aula.
Só que quando estavamos quase na 5a Avenida havia outro grupo de pessoas - adultos - com a cara enfiada numa vitrine. Fiquei na ponta dos meus pés e a imagem que eu pude enxergar era uma visao frontal da ilha com a Torre 2 em primeiro plano pegando fogo e a maior fumaceira. Falei para minha namorada: " Xi, uma das torres está pegando fogo !!!".
Apertamos o passo e quando chegamos finalmente na 5a Avenida olhamos para o horizonte na direita ... Aqueles prédios eram absurdamente altos. Sabe quando você desenha algo em perspectiva e o que está perto é grande e o resto vai diminuindo conforme chega no horizonte ? Pois é, as torres furavam este esquema, formando uma espécie de distorção da realidade no canto direito da imagem.

Acordamos cedo, afinal, era nosso último dia em Nova Iorque. Ainda tinhamos que comprar alguns presentes e o horário do nosso vôo ( da American !!! ) nos obrigaria a sair do hotel na hora do almoço. Clique na imagem abaixo e veja minha passagem.

Nosso hotel ficava na 32nd Street esquina com Broadway num pedaço da cidade que é conhecido como Little Korea. Um hotel legal e bem localizado ...o Empire State ficava praticamente atrás dele ( clique qui e veja uma foto do hotel e outras dicas sobre ele ).
Logo que saimos do hotel reparei uma certa bagunça de carros de bombeiros e sirenes pelas ruas, mas nem me liguei. A cidade é bem barulhenta e movimentada. Me pareceu que tudo estava normal. Já tentei várias vezes lembrar que horas eram, mas acho que só com uma hipnose regressiva eu vou conseguir. O fato é que viramos na Broadway e depois na 33rd para irmos numa lanchonete na 5a Avenida tomar o nosso café da manhã. Já na 33 eu reparei que tinha um grupo de jovens amontoados e conversando agitadamente em uma roda. Eu nem liguei ... Era uma garotada de um colégio daquela área e pensei que pudessem estar fazendo hora para entrar na aula.
Só que quando estavamos quase na 5a Avenida havia outro grupo de pessoas - adultos - com a cara enfiada numa vitrine. Fiquei na ponta dos meus pés e a imagem que eu pude enxergar era uma visao frontal da ilha com a Torre 2 em primeiro plano pegando fogo e a maior fumaceira. Falei para minha namorada: " Xi, uma das torres está pegando fogo !!!".
Apertamos o passo e quando chegamos finalmente na 5a Avenida olhamos para o horizonte na direita ... Aqueles prédios eram absurdamente altos. Sabe quando você desenha algo em perspectiva e o que está perto é grande e o resto vai diminuindo conforme chega no horizonte ? Pois é, as torres furavam este esquema, formando uma espécie de distorção da realidade no canto direito da imagem.

Para nossa surpresa, percebemos que a outra torre ( a que tinha a antena em cima ) também pegava fogo. Pensei comigo: "Caraca ... que fogo da pesada. Pegou numa torre e deve ter passado para outra ...". Além do espetáculo bizarro de ver as duas torres pegando fogo, vocês nao imaginam o que é ver a 5a Avenida fechada, sem trânsito e cheio de gente no meio da rua olhando para aquelas tochas metálicas.
Confesso que apesar de tudo, não entendi a dimensão do que ocorria. Até falei para minha namorada "vamos comer que isto vai pegar fogo o dia inteiro". Minha experiência brasileira sobre incêndios me dizia que os bombeiros levariam horas para apagar aquele fogo e tudo bem.
Entramos numa lachonete que ficava na 5a, quase em frente ao Empire State e comemos. Não demoramos mais do que 15 minutos e ao sairmos o espetáculo já ganhava uma dimensão maior. O número de pessoas na rua havia aumentado consideravelmente e pela primeira vez pude reparar que pessoas choravam e se abraçavam. Haviam carros largados com as portas abertas e rádios ligados com o som muito alto. Mais: antes eu conseguia distinguir vagamente a silhueta dos dois prédios, mas nesta hora eu só via a torre da antena em primeiro plano. A outra já estava sumida atrás da fumaça.

NOTA 1) Apesar do meu inglês ser relativamente bom, se as pessoas não estão falando comigo eu não estou prestando atenção, ou seja, o som ambiente não é automaticamente traduzido pelo meu cérebro. No caso dos rádios, eu sabia vagamente que estavam falando do incêndio, mas eu estava tão vidrado nas torres pegando fogo que não prestei atenção.
Com aquela curiosidade mórbida da raça humana, começamos a andar em direção ao incêncio, mas ainda estávamos bem longe do acontecimento. Aliás, 70% das pessoas estavam paradas assisistindo, 29% se afastava do local e 1% - como eu e um porrilhão de fotógrafos com umas máquinas possantes - andava em direção ao problema.
Começamos a andar rápido e mais rápido para vencer os muitos quarteirões que nos separavam dos prédios. Aliás, para falar a verdade, minha namorada não estava nada animada com a minha pressa. Ela não estava imbuída da tal morbidez que falei. Peguei ela pela mão e falei: " Garota, vem comigo que eu vou morrer velho ." ... Não sei de onde eu tirei isto ...
Acho que eram quase 10 horas e só hoje entendo o que vi. A fumaça que subia organizadamente para o céu de repente fez um movimento muito parecido com o da cerveja quando você vira a garrafa e ela bate no copo. Já viu anúncio de cerveja na TV quando dão um close no fundo da tulipa e o líquido gira ? Pois é, a fumaça fez isto quando a 1a torre caiu. Só que, como falei, eu já não conseguia mais vê-la e não podia sequer imaginar que aquele trambolho pudesse desmoronar. O meu ângulo de visão não me pemitiu entender o fato.
Confesso que apesar de tudo, não entendi a dimensão do que ocorria. Até falei para minha namorada "vamos comer que isto vai pegar fogo o dia inteiro". Minha experiência brasileira sobre incêndios me dizia que os bombeiros levariam horas para apagar aquele fogo e tudo bem.
Entramos numa lachonete que ficava na 5a, quase em frente ao Empire State e comemos. Não demoramos mais do que 15 minutos e ao sairmos o espetáculo já ganhava uma dimensão maior. O número de pessoas na rua havia aumentado consideravelmente e pela primeira vez pude reparar que pessoas choravam e se abraçavam. Haviam carros largados com as portas abertas e rádios ligados com o som muito alto. Mais: antes eu conseguia distinguir vagamente a silhueta dos dois prédios, mas nesta hora eu só via a torre da antena em primeiro plano. A outra já estava sumida atrás da fumaça.

NOTA 1) Apesar do meu inglês ser relativamente bom, se as pessoas não estão falando comigo eu não estou prestando atenção, ou seja, o som ambiente não é automaticamente traduzido pelo meu cérebro. No caso dos rádios, eu sabia vagamente que estavam falando do incêndio, mas eu estava tão vidrado nas torres pegando fogo que não prestei atenção.
Com aquela curiosidade mórbida da raça humana, começamos a andar em direção ao incêncio, mas ainda estávamos bem longe do acontecimento. Aliás, 70% das pessoas estavam paradas assisistindo, 29% se afastava do local e 1% - como eu e um porrilhão de fotógrafos com umas máquinas possantes - andava em direção ao problema.
Começamos a andar rápido e mais rápido para vencer os muitos quarteirões que nos separavam dos prédios. Aliás, para falar a verdade, minha namorada não estava nada animada com a minha pressa. Ela não estava imbuída da tal morbidez que falei. Peguei ela pela mão e falei: " Garota, vem comigo que eu vou morrer velho ." ... Não sei de onde eu tirei isto ...
Acho que eram quase 10 horas e só hoje entendo o que vi. A fumaça que subia organizadamente para o céu de repente fez um movimento muito parecido com o da cerveja quando você vira a garrafa e ela bate no copo. Já viu anúncio de cerveja na TV quando dão um close no fundo da tulipa e o líquido gira ? Pois é, a fumaça fez isto quando a 1a torre caiu. Só que, como falei, eu já não conseguia mais vê-la e não podia sequer imaginar que aquele trambolho pudesse desmoronar. O meu ângulo de visão não me pemitiu entender o fato.
Perdi toda a noção do tempo. Sei apenas que andamos pacas e fomos nos aproximando cada vez mais das torres ( afinal, para mim ainda tinha duas lá ), mas ainda assim bem distantes. Só depois de muito tempo lendo e relendo a cronologia dos fatos é que percebo que andamos por quase meia hora, pois a 1a torre caiu por volta das 9:54 e a outra lá pelas 10:28.
De repente - meu Deus - a Torre Norte começou a cair. Aquela antena que havia em cima do prédio foi descendo, descendo, descreveu um pequeno ângulo para a esquerda, começou a ser engolida pela fumaça e ... sumiu !!!
"A torre caiu !!! A torre caiu ...". Só consegui falar isto e olhar para a minha namorada, incrédula nos que seus olhos viam.
Houve uma espécie de "ohhhh" coletivo nas ruas.
Não tive reação. Não tirei fotos. Não havia som. Parei um instante de andar para fazer daquela imagem uma tatuagem no meu cérebro.
O dia estava lindo e do meio da fumaça brotaram estrelinhas douradas, como se fossem purpurinas de ouro no céu, cada uma delas representando uma alma indo ao encontro do eterno. Os vidros que se quebravam refletiam o sol num espetáculo de beleza desnecessária e inoportuna.
"I felt a great disturbance in the Force ... as if millions of voices suddenly cried out in terror and were suddenly silenced." teria dito Obi-Wan ... grande Obi-Wan.
O que ví - de um ângulo mais amplo, baixo e para a esquerda - é muito parecido com esta sequência:

Neste ponto devo esclarecer algumas questões:
- eu não vi os aviões batendo nas torres;
- eu não ouvi os aviões batendo nas torres;
- nâo vi pessoas se jogando;
- só vi a fumaça da 1a torre caindo e
- CARACA, sim, eu vi a segunda torre descendo com tudo !!!
Andamos, andamos, andamos. No horizonte onde antes havia um prédio, restava uma fumaça em forma de torre meio borrada. Hordas de pessoas vinham na nossa direção. Chegamos numa esquina onde a polícia já tinha fechado o acesso. Não me lembro qual e nem a que horas. Eu não tinha noção da magnitude do negócio e não prestei atenção. Apenas andava e queria estar perto do fato.

Presencie coisas que ( mais uma vez ) não fizeram o menor sentido na hora. Por exemplo, vi um grupo de 10 soldados, duas fileiras de cinco, marchando rápido, no estilo "hup, hup, hup", segurando fuzis imponentes e ... com roupas de guerra bacteriológica !!! "Estes americanos são mesmo uns exagerados ... pra que tudo isto ? Tão com medo que o esgoto estourado contamine a população ?" , pensei na hora.
Bem, como não era possível proseguir, viramos para a esquerda e ficamos observando a situação. De repente, ouvi um baque surdo e perguntei: "Você ouviu isto ?" ... minha namorada disse que não. Numa fração de segundos, por trás dos guardas e dos cavaletes, veio uma poeira branca e rápida avançando. Ela seguiu pela rua que vinha e abriu uma fina cortina secundária tanto para a direita dela própria ( onde eu estava ) quanto para a esquerda, enchendo a rua com um efeito "neblina".
Não fizemos nada. Apenas deixamos a poeira nos envolver. Nunca vou saber o que foi aquilo. Talvez um resto das torres cedendo de vez ou um outro prédio caindo ... sei lá. Resolvemos, então, continuar pela esquerda e fomos até a próxima esquina. Chegando lá o cerco estava sendo aumentado, ou seja, fomos obrigados a recuar um quarteirão.
Na maior tranquilidade, entramos em uma loja de tranqueiras e minha namorada começou a dar uma geral para ver se havia algo de interessante, afinal, era nosso último ( ha, ha, ha ) dia em Nova Iorque. Enquanto ela browseava a loja, fiquei distraído com não sei o que até que meu cérebro entrou no "modo de tradução automática" e comecei a ouvir o que o rádio da loja estava falando.
" Os Estados Unidos estão sendo atacados. Um avião acertou o Pentágono e outros dois as torres gêmeas de Nova Iorque, ocasionando seu colapso. Presidente George Bush não sei o que, o vice foi levado para não sei onde ... "
Minha namorada depois me disse que eu fiquei lívido naquele instante. Por um instante me dei conta do que estava rolando e o quão enrolado estávamos.
Ela me perguntou: "Que foi ?!" ... " Garota, os Estados Unidos estão sendo atacados, aviões derrubaram as torres, o Pentágono sifú, outro avião foi abatido não sei onde ... vamoscairforadaquirapidinho !!! "
De repente - meu Deus - a Torre Norte começou a cair. Aquela antena que havia em cima do prédio foi descendo, descendo, descreveu um pequeno ângulo para a esquerda, começou a ser engolida pela fumaça e ... sumiu !!!
"A torre caiu !!! A torre caiu ...". Só consegui falar isto e olhar para a minha namorada, incrédula nos que seus olhos viam.
Houve uma espécie de "ohhhh" coletivo nas ruas.
Não tive reação. Não tirei fotos. Não havia som. Parei um instante de andar para fazer daquela imagem uma tatuagem no meu cérebro.
O dia estava lindo e do meio da fumaça brotaram estrelinhas douradas, como se fossem purpurinas de ouro no céu, cada uma delas representando uma alma indo ao encontro do eterno. Os vidros que se quebravam refletiam o sol num espetáculo de beleza desnecessária e inoportuna.
"I felt a great disturbance in the Force ... as if millions of voices suddenly cried out in terror and were suddenly silenced." teria dito Obi-Wan ... grande Obi-Wan.
O que ví - de um ângulo mais amplo, baixo e para a esquerda - é muito parecido com esta sequência:

Neste ponto devo esclarecer algumas questões:
- eu não vi os aviões batendo nas torres;
- eu não ouvi os aviões batendo nas torres;
- nâo vi pessoas se jogando;
- só vi a fumaça da 1a torre caindo e
- CARACA, sim, eu vi a segunda torre descendo com tudo !!!
Andamos, andamos, andamos. No horizonte onde antes havia um prédio, restava uma fumaça em forma de torre meio borrada. Hordas de pessoas vinham na nossa direção. Chegamos numa esquina onde a polícia já tinha fechado o acesso. Não me lembro qual e nem a que horas. Eu não tinha noção da magnitude do negócio e não prestei atenção. Apenas andava e queria estar perto do fato.

Presencie coisas que ( mais uma vez ) não fizeram o menor sentido na hora. Por exemplo, vi um grupo de 10 soldados, duas fileiras de cinco, marchando rápido, no estilo "hup, hup, hup", segurando fuzis imponentes e ... com roupas de guerra bacteriológica !!! "Estes americanos são mesmo uns exagerados ... pra que tudo isto ? Tão com medo que o esgoto estourado contamine a população ?" , pensei na hora.
Bem, como não era possível proseguir, viramos para a esquerda e ficamos observando a situação. De repente, ouvi um baque surdo e perguntei: "Você ouviu isto ?" ... minha namorada disse que não. Numa fração de segundos, por trás dos guardas e dos cavaletes, veio uma poeira branca e rápida avançando. Ela seguiu pela rua que vinha e abriu uma fina cortina secundária tanto para a direita dela própria ( onde eu estava ) quanto para a esquerda, enchendo a rua com um efeito "neblina".
Não fizemos nada. Apenas deixamos a poeira nos envolver. Nunca vou saber o que foi aquilo. Talvez um resto das torres cedendo de vez ou um outro prédio caindo ... sei lá. Resolvemos, então, continuar pela esquerda e fomos até a próxima esquina. Chegando lá o cerco estava sendo aumentado, ou seja, fomos obrigados a recuar um quarteirão.
Na maior tranquilidade, entramos em uma loja de tranqueiras e minha namorada começou a dar uma geral para ver se havia algo de interessante, afinal, era nosso último ( ha, ha, ha ) dia em Nova Iorque. Enquanto ela browseava a loja, fiquei distraído com não sei o que até que meu cérebro entrou no "modo de tradução automática" e comecei a ouvir o que o rádio da loja estava falando.
" Os Estados Unidos estão sendo atacados. Um avião acertou o Pentágono e outros dois as torres gêmeas de Nova Iorque, ocasionando seu colapso. Presidente George Bush não sei o que, o vice foi levado para não sei onde ... "
Minha namorada depois me disse que eu fiquei lívido naquele instante. Por um instante me dei conta do que estava rolando e o quão enrolado estávamos.
Ela me perguntou: "Que foi ?!" ... " Garota, os Estados Unidos estão sendo atacados, aviões derrubaram as torres, o Pentágono sifú, outro avião foi abatido não sei onde ... vamoscairforadaquirapidinho !!! "
Saímos da loja e a vida tinha novas cores através dos meus olhos. Não que eu estivesse com medo e nem achando que fosse morrer, mas a pasaigem da cidade fazia um sentido diferente. Ônibus encostados com as portas abertas e ninguém dentro, lojas fechadas com tudo jogado, carros largados em qualquer canto no meio daquelas avenidas enormes, vento e sujeira ... um lance meio Omega Man ( a foto do meio aqui de baixo é a mais ilustrativa ).

Conforme as pessoas iam sendo evacuadas bloco a bloco - incluindo quem estava dentro dos prédios, grandes ou pequenos - a multidão ia aumentando, todo mundo sendo arrebanhado para um mesmo lado da cidade. Os únicos carros que andavam eram os oficiais na contra-mão.
Em um puro lance de sorte, encostei em um orelhão perto de um posto de gasolina que ainda estava funcionando. Aliás, pelo que fiquei sabendo depois, foi muita sorte mesmo. Além do congestionamento de ligações ( quem estava fora queria ligar para lá, quem estava dentro queria avisar que estava vivo ), quando as torres desmoronaram levaram junto todo um aparato de antenas de transmissão de telefonia normal e celular. Somou-se a isto o fato de que as grandes centrais telefônicas que funcionavam no subsolo do WTC ficaram esmagadas ou inundadas.
Foi engraçado porque foi só eu encostar no tal telefone e começar a falar que juntou uma fila enorme. Liguei para o meu irmão no Brasil para dizer que estava vivo e ele mais que depressa promoveu uma chamda em conferência com o resto da família do tipo "todo mundo falando junto". Foi nessa que um oriental que estava atrás de mim cutucou o meu ombro e falou alguma coisa em uma lingua que não era a inglesa ... Ah, se ele soubesse como eu detesto quando encostam em mim ...
Clique na foto e veja ela ampliada.
Repare na fumaça das torres já caídas no canto esquerdo
Tive um ataque no telefone, berrando impropérios em português para a fila toda e exagerando nos "érres" de maneira a dar mais força ao meu discurso. Pelo que aprendi na prática a galera se borra quando houve uma outra lingua cheia de "érres" fortes e/ou aspirados. Pensam que é alemão ou russo. "Puta que o PaRRIU !!! CaRRalho !!! Me deixa usaRR a poRRa do telefone !!!" ... e terminei a frase dando uma porrada com a mão em cima do orelhão que doeu pra caRRalho.
A galera se assustou e recuou. Terminei a ligação, bati o telefone, olhei para a fila, gritei "O RRato RRoeu a RRoupa do RRei de RRoma RRomário seu meRRda" e fui embora. A praga foi tamanha que o oriental tentou ligar depois e o telefone ficou mudo.
Difícil dizer quanto tempo andamos de volta em direção ao nosso hotel, pois era meio longe e tudo estava confuso. O mais engraçado é que eu estava usando uma camisa dos bombeiros de NY justo neste dia e houve quem me cumprimentasse pelo "meu admirável trabalho".
Nesta caminhada vi três coisas que nunca vou esquecer:
- um senhor com um terno imundo ( veja a foto abaixo ), em estado de choque, tentando ser animado pelos passantes. Ele não soltava sua mala de mão nem a paulada e tinha o rosto sujo de poeira marcado por onde suas lágrimas correram,
Clique na foto e veja ela ampliada.
- o exército evacuando um quarteirão ( e eu estava nele ) onde havia uma perua abandonada que "poderia conter bombas" e
- dois F-15 com uma velocidade e estrondo espantosos interceptando e escoltando um avião de carreira que estava chegando na cidade. Coisa de filme.

Passamos antes no hotel onde fomos informados que o país estava na beira de um DEFCON 3 e de um Threatcon Delta e que nossa hospedagem estava renovada porque não havia Cristo e nem Alá que nos tirasse de NY de avião. Acredita que falaram para não bebermos água que não fosse engarrafada porque o resto poderia estar contaminado ?
"Defcon" stands for the whole military's "defense readiness
condition." Defcon 5 means "normal readiness," "and Defcon 1
means "maximum readiness." The Washington Post
reported that President Bush authorized the military" to declare
Defcon 3, which means "an increase in force readiness above
that required fornormal readiness."
"Threatcon" is short for "terrorist threat condition."
ThreatconDelta means a terrorist attack has occurred
in the immediate area or that intelligence indicates that an
attack against a specific location is likely. Normally, Threatcon
Delta is declared as a localized warning (though not in this
case). Among the additional measures taken: more guards are
placed on duty, all vehicles on the military installation are
identified, and all personnel must be positively identified. All
suitcases, briefcases, and packages brought into the
installation are searched. Local authorities are consulted
about closing roads and facilities that might make sites more
vulnerable to terrorist attack.
Enquanto o mundo todo tinha assistido quase tudo ao vivo pela TV, eu e minha namorada só vimos as imagens dos aviões batendo nas torres durante nosso almoço quase três horas mais tarde numa TV do Mc Donald´s da Times Square que estava assombrosamente vazia e com quase tudo fechado. Nem o chato do Naked Cowboy estava lá. Todas as estações de TV falavam sobre o assunto e quem não tinha uma programação específica passou a transmitir o sinal da CNN. Posso estar enganado, mas se não me falha a memória até a MTV estava nessa.
Saímos da lanchonete e eu não pude acreditar que eu estava lá, em plena Times Square, lendo as notícias sobre o ocorrido naqueles tele-tipos da praça com suas letras enormes e ligeiras. Coisa de filme de novo.
Me lembro que se pela manhã o vento levava a fumaça e a poeira das torres para fora da ilha, com o cair da tarde eu acho que o vento mudou e começou a trazer para dentro dela um cheiro de polímero queimado com concreto. Fácil imaginar: algo como se sua casa nova tivesse pegando fogo, manja ?
Clique na fotos e veja elas ampliadas.
Não havia mais o que fazer e voltamos para o hotel onde o clima era de zona total. Os poucos que haviam conseguido chegar a NY não tinham quartos para ficar porque ninguém podia ir embora. Quem tinha que ir embora não sabia o que fazer, principalmente aqueles que já estavam com o dinheiro no final. Os seguranças que eram inexistentes horas antes ficavam barrando todo mundo na porta e exigindo que se mostrasse a chave do hotel ou algum tipo de identificação.
A tarde demorou a cair naquele dia quente que parecia um verãozão brasileiro. Ainda voltei a sair do hotel mais tarde e peguei uma carona com uma japonês de bicicleta ( ainda bem que ele não era amigo do cara do telefone ) que me levou até o mais próximo que foi possível da área das torres onde reinava uma fumaça solene. Fiquei impressionado com a quantidade de caminhões tira-entulho azuis que já estava lá. Bem mais que 100 estacionados em uma fila que não acabava mais.
Havia uma brasileira pentelha que ficava no lobby do hotel ligando todos os dias para a mãe ( os telefones voltaram logo ) no Brasil e falando "maínha, quero ir embora daquiiiiii ... " e depois choraaaava. Um saco. Ao invés de aproveitar o bonus extra de NY que ela ganhou a burra ficou se desidratando com a pobre da mãe que não podia fazer nada.
Aliás, ela deve ter borrado suas últimas roupas limpas quando na noite seguinte fomos impedidos de voltar aos nossos quartos porque havia uma ameaça de bomba no Empire State que fica grudado no hotel onde a gente estava. Caramba, se realmente houvesse uma bomba lá não ia sobrar nada do hotel !!! Mantiveram a gente afastados de lá uns quatro quarteirões até que pudessemos voltar. Tinha gente de pijama na rua por ter sido evacuada quando já estava pronta para dormir. Foi linda esta.
Depois daquele dia não me lembro direito a sequência de coisas que eu e minha namorada fizemos. Já tinhamos visitado quase tudo e a cidade estava toda meia-bomba após a tragédia. Me lembro, entre outras coisas, que a Broadway voltou a funcionar na sexta e aproveitamos para ir assistir ao Rocky Horror Show onde cantei God Bless America com a platéia para não passar por chato. Outra coisa arrepiante eram as palavras de ordem do Bush que os letreiros da NASDAQ publicavam ( entre outras, "ataques terroristas podem abalar as fundações de nossos maiores prédios, mas não podem tocar as fundações da América" ). E eu ali, turista acidental total lendo aquilo ao vivo.
Clique na foto e veja ela ampliada.
Fomos praticamente todas as noites depois do dia 11 até as praças como a Washington Square onde haviam vigílias em nome da paz. Rolavam cartazes por toda a cidade conclamando todos a se encontrarem e a adesão era em massa.
Pessoas cantavam ( muito John Lenon ), acendiam velas, faziam discursos, exibiam suas fachas e cartazes, promoviam debates acalorados em rodas de uma maneira que eu nunca tinha visto. Achei muito legal. Ninguém falava em retaliação. O clima era de paz e haviam representantes de todas as tribos por lá.
Ainda não se sabia o total de mortos no desabamento, até porque algumas pessoas estavam não identificadas nos hospitais e outras sequer tinham conseguido telefonar ou voltar para casa, mas já no dia 12 começaram a surgir os rostos da tragédia.
Nas ruas e praças, às vezes sozinhos ou em fileiras enormes e silenciosas, estavam eles lá, nos olhando na maioria das vezes alegres e com roupas coloridas, entre familiares ou amigos ... e vivos.
Clique na foto e veja ela ampliada.
Aliás, aos poucos fomos caindo na real sobre esta questão. Minha namorada começou a falar "Lembra do cara com o qual você brigou no Sbarro que ficava lá em cima ? E dos universitários que iam nos elevadores contando a história das torres ? Meu Deus, e o cara que implicou com a gente por causa da foto com o tripé ?!". Pedi a ela que pelo amor de Buda parasse de encher minha cabeça de fantasmas.
Além de irmos nas praças em nossos passeios noturnos, fomos algumas vezes até a beira do desastre ( na realidade muitos quarteirões depois porque o isolamento era severo ) para vermos a movimentação. Nos limites das barricadas havia sempre muitas pessoas dispostas a bater palmas paras os trabalhadores, voluntários, bombeiros e policiais que entravam e saíam . Além disso, esta pessoas doavam comida, água e refrigerantes aos quilos para o pessoal que estava lá no front. Foi numa dessa que vimos a comitiva do Bush chegar e sair para dar um apoio para os operários.
A coisa fluía de tal maneira que até quem estava batendo palmas ganhava comida e água pela força que estava dando, acredita ? Eu e minha namorada estavamos nessa. Não muito animados na questão das palmas, mas sinceramente emanando bons fluidos. Ah, sim, além de água e sanduiche, ganhamos de um senhor uma fita azul e vermelha para colocarmos em nossas roupas.

Nos dias que se seguiram a TV avisava que não era mais necessário que as pessoas se apresentassem para doar sangue e que não havia mais a necessidade de que médicos de todo o país fossem voluntariamente para NY ... Pois é, nessas horas aquele nacionalismo pegajoso deles faz algum sentido.
Bem, no sábado de manhã nos avisaram que havia um avião da American que estava indo para Miami onde poderiamos fazer a conexão para o Brasil. Era um processo sem volta e eu tinha a intuição que ao sair do hotel estariamos ferrados.
Fomos levados até o aeroporto numa boa, mas lá estava um caos. Gente jogada para tudo que era lado, todos os vôos atrasados e - pasme - nenhum telefone funcionando por medida de segurança !!! Tive que pedir o celular de um taxista emprestado para ligar para os agentes de viagem para ver se ele podiam nos ajudar ( não podiam, claro ). Nós não tinhamos para onde voltar e parecia que teriamos que ficar no meio daquela mulambada por muito tempo. O fato é que não foi tão ruim e com um atraso de 4 horas ( que nos custaria caro em Miami ) chamaram nosso avião. Me ferrei porque um jogo de ferramentas que compramos para dar de presente não passou no raio-X, depois de estar horas na fila de embarque. Tive que trocar ele por um outro negócio no próprio aeroporto ... e entrar na fila do embarque de novo.
Confesso que foi triste ver a polícia dando uma geral num grupo de indianos com turbantes onde havia crianças e senhoras. Histeria e preconceito puro. Já dentro do avião - lotado e quente - tudo foi normal, a não ser pelo fato de que os garfos e as colheres eram de plástico e as facas estavam proibidas. Muito inteligente.
Chegamos sei lá que horas da madrugada em Miami e o quadro era ainda pior: tinha gente do mundo inteiro dormindo no chão pelo que sei já havia 5 dias !!! O pior é que com o atraso ao sair de NY perdemos a conexão que nos levaria ao Brasil e não havia ninguém da companhia aérea para nos ajudar àquela hora.
Exigir seus direitos internacionais enquanto turista ? Ficar num hotel com tudo pago até o próximo vôo ? Hum, nem pensar.
Se deu mal um comissário de bordo que veio no nosso avião e que passou do meu lado. Na realidade, já havia umas 10 pessoas comigo e minha namorada, todos brasileiros, andando em bando e querendo pegar alguém ( acordado ) na porrada. Ele era mais baixo do que eu e, como direi ?, meio frágil. Peguei ele pelo braço e com um inglês nunca dantes navegado despejei toda a minha ira. Literalmente grudamos no cara e ele arrumou um telefone da American onde havia alguém acordado.
Não adiantou nada. Teriamos que deitar no meio daquela escória e esperar sabe-se lá o que e por um tempo indefinido.
Foi aí que entrou em campo o jeitinho brasileiro: ouvimos uma lenda urbana de que a boa e velha TAM estava com 4 aviões pousados no aeroporto e que ela estava endossando qualquer bilhete de outras companhias para levar brasileiros de volta para casa. Quase chorei e cantei o hino. Só não fiz isto para não acordar os esquimós que estavam dormindo em um trenó perto de mim.
Fomos ao balcão da TAM e a parada não era lenda. Aquele clima de improviso, todo mundo se conhece, palavrão rolando solto, umas fotos de acarajés na parade e coisa e tal. Flórida ( estavamos em Miami !!! ) foi ficar na de espera durante a madrugada inteira de olho para ver se vagabundo não furava a fila. Sabe como é, né ? Valia tudo: porrada em mulher grávida, dedo no olho de cego e bater em morto. De vez em quando pintava um clima hostil, principalmente quando chegavam brasileiros de outros vôos da TAM que realmente tinham direito a entrar nos aviões e passavam na frente de todo mundo. Sabe quando você está no Banco do Brasil lotado e chega uma Kombi cheia de idosos da marinha ? Tipo isso.
As horas passando, a cueca vencida e os aviões saindo ... o primeiro, o segundo, o terceiro ... Conseguimos embarcar no quarto lá pelo meio-dia de domingo. Não sei o que foi feito de quem ficou para o quinto e inexistente avião.
Aaah, finalmente voltando para o Brasil.
Pena que nós queriamos ir para o Rio e fomos parar em Campinas.

Conforme as pessoas iam sendo evacuadas bloco a bloco - incluindo quem estava dentro dos prédios, grandes ou pequenos - a multidão ia aumentando, todo mundo sendo arrebanhado para um mesmo lado da cidade. Os únicos carros que andavam eram os oficiais na contra-mão.
Em um puro lance de sorte, encostei em um orelhão perto de um posto de gasolina que ainda estava funcionando. Aliás, pelo que fiquei sabendo depois, foi muita sorte mesmo. Além do congestionamento de ligações ( quem estava fora queria ligar para lá, quem estava dentro queria avisar que estava vivo ), quando as torres desmoronaram levaram junto todo um aparato de antenas de transmissão de telefonia normal e celular. Somou-se a isto o fato de que as grandes centrais telefônicas que funcionavam no subsolo do WTC ficaram esmagadas ou inundadas.
Foi engraçado porque foi só eu encostar no tal telefone e começar a falar que juntou uma fila enorme. Liguei para o meu irmão no Brasil para dizer que estava vivo e ele mais que depressa promoveu uma chamda em conferência com o resto da família do tipo "todo mundo falando junto". Foi nessa que um oriental que estava atrás de mim cutucou o meu ombro e falou alguma coisa em uma lingua que não era a inglesa ... Ah, se ele soubesse como eu detesto quando encostam em mim ...
Clique na foto e veja ela ampliada.
Repare na fumaça das torres já caídas no canto esquerdo
Tive um ataque no telefone, berrando impropérios em português para a fila toda e exagerando nos "érres" de maneira a dar mais força ao meu discurso. Pelo que aprendi na prática a galera se borra quando houve uma outra lingua cheia de "érres" fortes e/ou aspirados. Pensam que é alemão ou russo. "Puta que o PaRRIU !!! CaRRalho !!! Me deixa usaRR a poRRa do telefone !!!" ... e terminei a frase dando uma porrada com a mão em cima do orelhão que doeu pra caRRalho.
A galera se assustou e recuou. Terminei a ligação, bati o telefone, olhei para a fila, gritei "O RRato RRoeu a RRoupa do RRei de RRoma RRomário seu meRRda" e fui embora. A praga foi tamanha que o oriental tentou ligar depois e o telefone ficou mudo.
Difícil dizer quanto tempo andamos de volta em direção ao nosso hotel, pois era meio longe e tudo estava confuso. O mais engraçado é que eu estava usando uma camisa dos bombeiros de NY justo neste dia e houve quem me cumprimentasse pelo "meu admirável trabalho".
Nesta caminhada vi três coisas que nunca vou esquecer:
- um senhor com um terno imundo ( veja a foto abaixo ), em estado de choque, tentando ser animado pelos passantes. Ele não soltava sua mala de mão nem a paulada e tinha o rosto sujo de poeira marcado por onde suas lágrimas correram,
Clique na foto e veja ela ampliada.
- o exército evacuando um quarteirão ( e eu estava nele ) onde havia uma perua abandonada que "poderia conter bombas" e
- dois F-15 com uma velocidade e estrondo espantosos interceptando e escoltando um avião de carreira que estava chegando na cidade. Coisa de filme.

Passamos antes no hotel onde fomos informados que o país estava na beira de um DEFCON 3 e de um Threatcon Delta e que nossa hospedagem estava renovada porque não havia Cristo e nem Alá que nos tirasse de NY de avião. Acredita que falaram para não bebermos água que não fosse engarrafada porque o resto poderia estar contaminado ?
"Defcon" stands for the whole military's "defense readiness
condition." Defcon 5 means "normal readiness," "and Defcon 1
means "maximum readiness." The Washington Post
reported that President Bush authorized the military" to declare
Defcon 3, which means "an increase in force readiness above
that required fornormal readiness."
"Threatcon" is short for "terrorist threat condition."
ThreatconDelta means a terrorist attack has occurred
in the immediate area or that intelligence indicates that an
attack against a specific location is likely. Normally, Threatcon
Delta is declared as a localized warning (though not in this
case). Among the additional measures taken: more guards are
placed on duty, all vehicles on the military installation are
identified, and all personnel must be positively identified. All
suitcases, briefcases, and packages brought into the
installation are searched. Local authorities are consulted
about closing roads and facilities that might make sites more
vulnerable to terrorist attack.
Enquanto o mundo todo tinha assistido quase tudo ao vivo pela TV, eu e minha namorada só vimos as imagens dos aviões batendo nas torres durante nosso almoço quase três horas mais tarde numa TV do Mc Donald´s da Times Square que estava assombrosamente vazia e com quase tudo fechado. Nem o chato do Naked Cowboy estava lá. Todas as estações de TV falavam sobre o assunto e quem não tinha uma programação específica passou a transmitir o sinal da CNN. Posso estar enganado, mas se não me falha a memória até a MTV estava nessa.
Saímos da lanchonete e eu não pude acreditar que eu estava lá, em plena Times Square, lendo as notícias sobre o ocorrido naqueles tele-tipos da praça com suas letras enormes e ligeiras. Coisa de filme de novo.
Me lembro que se pela manhã o vento levava a fumaça e a poeira das torres para fora da ilha, com o cair da tarde eu acho que o vento mudou e começou a trazer para dentro dela um cheiro de polímero queimado com concreto. Fácil imaginar: algo como se sua casa nova tivesse pegando fogo, manja ?
Clique na fotos e veja elas ampliadas.
Não havia mais o que fazer e voltamos para o hotel onde o clima era de zona total. Os poucos que haviam conseguido chegar a NY não tinham quartos para ficar porque ninguém podia ir embora. Quem tinha que ir embora não sabia o que fazer, principalmente aqueles que já estavam com o dinheiro no final. Os seguranças que eram inexistentes horas antes ficavam barrando todo mundo na porta e exigindo que se mostrasse a chave do hotel ou algum tipo de identificação.
A tarde demorou a cair naquele dia quente que parecia um verãozão brasileiro. Ainda voltei a sair do hotel mais tarde e peguei uma carona com uma japonês de bicicleta ( ainda bem que ele não era amigo do cara do telefone ) que me levou até o mais próximo que foi possível da área das torres onde reinava uma fumaça solene. Fiquei impressionado com a quantidade de caminhões tira-entulho azuis que já estava lá. Bem mais que 100 estacionados em uma fila que não acabava mais.
Havia uma brasileira pentelha que ficava no lobby do hotel ligando todos os dias para a mãe ( os telefones voltaram logo ) no Brasil e falando "maínha, quero ir embora daquiiiiii ... " e depois choraaaava. Um saco. Ao invés de aproveitar o bonus extra de NY que ela ganhou a burra ficou se desidratando com a pobre da mãe que não podia fazer nada.
Aliás, ela deve ter borrado suas últimas roupas limpas quando na noite seguinte fomos impedidos de voltar aos nossos quartos porque havia uma ameaça de bomba no Empire State que fica grudado no hotel onde a gente estava. Caramba, se realmente houvesse uma bomba lá não ia sobrar nada do hotel !!! Mantiveram a gente afastados de lá uns quatro quarteirões até que pudessemos voltar. Tinha gente de pijama na rua por ter sido evacuada quando já estava pronta para dormir. Foi linda esta.
Depois daquele dia não me lembro direito a sequência de coisas que eu e minha namorada fizemos. Já tinhamos visitado quase tudo e a cidade estava toda meia-bomba após a tragédia. Me lembro, entre outras coisas, que a Broadway voltou a funcionar na sexta e aproveitamos para ir assistir ao Rocky Horror Show onde cantei God Bless America com a platéia para não passar por chato. Outra coisa arrepiante eram as palavras de ordem do Bush que os letreiros da NASDAQ publicavam ( entre outras, "ataques terroristas podem abalar as fundações de nossos maiores prédios, mas não podem tocar as fundações da América" ). E eu ali, turista acidental total lendo aquilo ao vivo.
Clique na foto e veja ela ampliada.
Fomos praticamente todas as noites depois do dia 11 até as praças como a Washington Square onde haviam vigílias em nome da paz. Rolavam cartazes por toda a cidade conclamando todos a se encontrarem e a adesão era em massa.
Pessoas cantavam ( muito John Lenon ), acendiam velas, faziam discursos, exibiam suas fachas e cartazes, promoviam debates acalorados em rodas de uma maneira que eu nunca tinha visto. Achei muito legal. Ninguém falava em retaliação. O clima era de paz e haviam representantes de todas as tribos por lá.
Ainda não se sabia o total de mortos no desabamento, até porque algumas pessoas estavam não identificadas nos hospitais e outras sequer tinham conseguido telefonar ou voltar para casa, mas já no dia 12 começaram a surgir os rostos da tragédia.
Nas ruas e praças, às vezes sozinhos ou em fileiras enormes e silenciosas, estavam eles lá, nos olhando na maioria das vezes alegres e com roupas coloridas, entre familiares ou amigos ... e vivos.
Clique na foto e veja ela ampliada.
Aliás, aos poucos fomos caindo na real sobre esta questão. Minha namorada começou a falar "Lembra do cara com o qual você brigou no Sbarro que ficava lá em cima ? E dos universitários que iam nos elevadores contando a história das torres ? Meu Deus, e o cara que implicou com a gente por causa da foto com o tripé ?!". Pedi a ela que pelo amor de Buda parasse de encher minha cabeça de fantasmas.
Além de irmos nas praças em nossos passeios noturnos, fomos algumas vezes até a beira do desastre ( na realidade muitos quarteirões depois porque o isolamento era severo ) para vermos a movimentação. Nos limites das barricadas havia sempre muitas pessoas dispostas a bater palmas paras os trabalhadores, voluntários, bombeiros e policiais que entravam e saíam . Além disso, esta pessoas doavam comida, água e refrigerantes aos quilos para o pessoal que estava lá no front. Foi numa dessa que vimos a comitiva do Bush chegar e sair para dar um apoio para os operários.
A coisa fluía de tal maneira que até quem estava batendo palmas ganhava comida e água pela força que estava dando, acredita ? Eu e minha namorada estavamos nessa. Não muito animados na questão das palmas, mas sinceramente emanando bons fluidos. Ah, sim, além de água e sanduiche, ganhamos de um senhor uma fita azul e vermelha para colocarmos em nossas roupas.

Nos dias que se seguiram a TV avisava que não era mais necessário que as pessoas se apresentassem para doar sangue e que não havia mais a necessidade de que médicos de todo o país fossem voluntariamente para NY ... Pois é, nessas horas aquele nacionalismo pegajoso deles faz algum sentido.
Bem, no sábado de manhã nos avisaram que havia um avião da American que estava indo para Miami onde poderiamos fazer a conexão para o Brasil. Era um processo sem volta e eu tinha a intuição que ao sair do hotel estariamos ferrados.
Fomos levados até o aeroporto numa boa, mas lá estava um caos. Gente jogada para tudo que era lado, todos os vôos atrasados e - pasme - nenhum telefone funcionando por medida de segurança !!! Tive que pedir o celular de um taxista emprestado para ligar para os agentes de viagem para ver se ele podiam nos ajudar ( não podiam, claro ). Nós não tinhamos para onde voltar e parecia que teriamos que ficar no meio daquela mulambada por muito tempo. O fato é que não foi tão ruim e com um atraso de 4 horas ( que nos custaria caro em Miami ) chamaram nosso avião. Me ferrei porque um jogo de ferramentas que compramos para dar de presente não passou no raio-X, depois de estar horas na fila de embarque. Tive que trocar ele por um outro negócio no próprio aeroporto ... e entrar na fila do embarque de novo.
Confesso que foi triste ver a polícia dando uma geral num grupo de indianos com turbantes onde havia crianças e senhoras. Histeria e preconceito puro. Já dentro do avião - lotado e quente - tudo foi normal, a não ser pelo fato de que os garfos e as colheres eram de plástico e as facas estavam proibidas. Muito inteligente.
Chegamos sei lá que horas da madrugada em Miami e o quadro era ainda pior: tinha gente do mundo inteiro dormindo no chão pelo que sei já havia 5 dias !!! O pior é que com o atraso ao sair de NY perdemos a conexão que nos levaria ao Brasil e não havia ninguém da companhia aérea para nos ajudar àquela hora.
Exigir seus direitos internacionais enquanto turista ? Ficar num hotel com tudo pago até o próximo vôo ? Hum, nem pensar.
Se deu mal um comissário de bordo que veio no nosso avião e que passou do meu lado. Na realidade, já havia umas 10 pessoas comigo e minha namorada, todos brasileiros, andando em bando e querendo pegar alguém ( acordado ) na porrada. Ele era mais baixo do que eu e, como direi ?, meio frágil. Peguei ele pelo braço e com um inglês nunca dantes navegado despejei toda a minha ira. Literalmente grudamos no cara e ele arrumou um telefone da American onde havia alguém acordado.
Não adiantou nada. Teriamos que deitar no meio daquela escória e esperar sabe-se lá o que e por um tempo indefinido.
Foi aí que entrou em campo o jeitinho brasileiro: ouvimos uma lenda urbana de que a boa e velha TAM estava com 4 aviões pousados no aeroporto e que ela estava endossando qualquer bilhete de outras companhias para levar brasileiros de volta para casa. Quase chorei e cantei o hino. Só não fiz isto para não acordar os esquimós que estavam dormindo em um trenó perto de mim.
Fomos ao balcão da TAM e a parada não era lenda. Aquele clima de improviso, todo mundo se conhece, palavrão rolando solto, umas fotos de acarajés na parade e coisa e tal. Flórida ( estavamos em Miami !!! ) foi ficar na de espera durante a madrugada inteira de olho para ver se vagabundo não furava a fila. Sabe como é, né ? Valia tudo: porrada em mulher grávida, dedo no olho de cego e bater em morto. De vez em quando pintava um clima hostil, principalmente quando chegavam brasileiros de outros vôos da TAM que realmente tinham direito a entrar nos aviões e passavam na frente de todo mundo. Sabe quando você está no Banco do Brasil lotado e chega uma Kombi cheia de idosos da marinha ? Tipo isso.
As horas passando, a cueca vencida e os aviões saindo ... o primeiro, o segundo, o terceiro ... Conseguimos embarcar no quarto lá pelo meio-dia de domingo. Não sei o que foi feito de quem ficou para o quinto e inexistente avião.
Aaah, finalmente voltando para o Brasil.
Pena que nós queriamos ir para o Rio e fomos parar em Campinas.
